domingo, agosto 07, 2011

A crise do egoismo

Assiste-se hoje a uma grave crise financeira, económica e social. As repercussões desta crise são ainda difíceis de avaliar, mas existe uma clara consciência de que os filhos de hoje viverão pior que os seus pais, algo que até pouco anos atrás seria completamente inimaginável. Grande parte dos analistas políticos e financeiros culpam o sistema capitalista desregulável e o excesso da dívida dos países e dos cidadãos como os principais culpados desta crise. É verdade que durante muitos anos grande parte de nós viveu acima das suas possibilidades contraindo um grande número de empréstimos pelos mais variados motivos, desde a habitação até crédito para férias. Se o recurso sistemático ao crédito ao consumo revela um claro excesso de luxúria, já o recurso ao crédito à habitação tornou-se como uma necessidade imperiosa para quem deseja e tem necessidade de ter uma casa própria. Sem recurso ao crédito teríamos certamente que morar em casa dos pais toda a nossa vida atendendo ao valor excessivo do mercado de habitação em comparação com os salários médios praticados junto da população mais jovem.

Convém analisar as causas desta crise que no meu entendimento sem bem mais profundas e de difícil recuperação, sem que exista uma forte mudança de paradigma à escala global. Gostaria de pegar nas afirmações do antigo chanceler alemão Helmut Kohl que numa recente entrevista disse que o grande problema dos actuais líderes europeus é não terem vivido a 2º Guerra Mundial tal como sucedeu com ele. Esta afirmação é reveladora de uma realidade preocupante e que pode ser analisada de uma forma mais profunda. Grande parte da nossa geração, dos nossos líderes políticos e empresariais, já não conviveram com esta triste realidade. O contacto com esta realidade triste e cruel tornaram os nossos líderes do passado pessoas mais conscienciosas e tolerantes com o outro. Por seu lado, os que não conviveram com esta realidade possuem um apego superior aos bens materiais e tendem a desvalorizar princípios básicos de convivência e solidariedade, pois nunca sentiram directamente privações desta ordem de grandeza. Esta é uma realidade e, consequentemente, tornou as pessoas menos tolerantes e cada vez mais exigentes na perspectiva de atingirem o sucesso individual, muitas vezes à custa do desrespeito pelo bem-estar do próximo.

No actual paradigma social e político assiste-se cada vez mais a medidas egoístas. São os Estados que só emprestam dinheiro a outro país em troca de elevados juros, são as empresas que procuram sucessivamente aumentar os seus lucros de semestre para semestre, são os accionistas que praticam medidas especulativas na busca do lucro fácil e são as pessoas que querem ter um elevado nível de vida à custa de pouco esforço. Desta forma, e em termos globais, não teremos condições de atingir a tão almejada prosperidade. Neste sentido, considero que a nossa crise resume-se a uma crise do egoísmo, que é bem mais preocupante que uma mera crise económica, financeira e social. Para se vencer esta crise terá necessariamente que surgir uma mudança de paradigma que permita encontrar soluções abrangentes que ataquem estas três dimensões, sem as quais o egoísmo terá um terreno fértil para prosperar.

segunda-feira, junho 20, 2011

Novo governo


O anúncio do novo governo da coligação PSD/CDS-PP foi uma lufada de ar fresco e devolva esperanças bem positivas no surgimento de um novo governo mais competente e com capacidade para fazer frente aos inúmeros desafios que se colocam. A renovação política que se assistiu é muito positiva e permitirá construir uma classe política tecnicamente mais preparada. O Dr. Pedro Passos Coelho cumprir com o estipulado, nomeadamente ao nível da abertura da política à sociedade civil e também na construção de um governo mais pequeno e menos dispendioso. Claro que o reverso da medalha passa pelo excesso de áreas de intervenção de cada um dos ministros, mas esta situação poderá ser compensada com os secretários de Estado e com um maior empenho e articulação de todos os envolvidos.


Sem querer individualizar uma análise mais pormenorizada pelas pastas da governação, julgo que há dois ministros que se destacam. Em 1º lugar o ministro da Economia que revela profundos conhecimentos pela área económica e experiência académica nos EUA e Canadá. Acredito que venha para esta super pasta com um espírito extremamente reformador, mas que poderá sentir alguns problemas na gestão desta pasta junto dos vários agentes económicos. Certamente que terá que enfrentar algumas forças de bloqueio pré-estabelecidas e, portanto, terá que ter uma elevada resistência a pressões e capacidade para lidar com situações menos desejáveis. Neste sentido, a sua capacidade de resistência será colocada à prova. Espero que todas estas condicionantes não o façam abandonar o Governo, pois financeiramente e em termos de progressão na carreira ser-lhe-ia mais fácil ter optado por manter a sua vida académica. Outro ministro que merece um especial destaque é o Dr. Paulo Macedo, que certamente terá uma muito maior capacidade de resistência e de encarar obstáculos. A sua reforma do fisco prova isto mesmo. Contudo, a pasta da saúde deverá lançar-lhe também novos desafios, sendo o principal a articulação de uma visão da gestão empresarial da saúde (que tem existir, pois os recursos são limitadas) com uma forte consciência social. Se conseguir aliar estas duas capacidades (que não são totalmente antagónicas) poderemos ter um excelente ministro.

Por último, aproveito para discordar do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, quando afirmou que o aspecto mais negativo deste governo é o Dr. Miguel Relvas nos assuntos parlamentares. Acredito que esta pasta poderá ser um importante ponto de união da coligação partidária, e o Dr. Miguel Relvas tem capacidades inatas para desempenhar um excelente lugar. Corroboro também que o PSD fica a perder com a presença do Dr. Miguel Relvas no Governo, pois a sua dedicação ao partido terá que ser necessariamente inferior, mas por seu lado o País fica a ganhar. Neste sentido, e como sempre afirmou o PPC, acima do partido encontra-se sempre Portugal.

segunda-feira, abril 11, 2011

Entrada do FMI em Portugal

O recente pedido de ajuda de Portugal às instâncias europeias e ao FMI é entendido por muitos analistas e agentes no mercado como demasiado tardio. É inteiramente verdade este tipo de análise, mas também não deixa de ser verdade de que o país deveria ter realizado todos os esforços para evitar este pedido de ajuda. Mais do que ser humilhante para os nossos governantes, serão certamente os mais de 10 milhões de portugueses que irão sofrer pela introdução do plano de austeridade que se avizinha.
Contrariamente a 1978 e 1983 em que a entrada do FMI em Portugal permitiu a implementação efectiva de medidas de reestruturação da nossa economia e o seu crescimento económico subsequente, a verdade é que o actual papel do FMI na Grécia e Irlanda não produziu efeitos imediatos positivos, tendo apenas evitado que estes países recorressem a financiamento junto dos mercados externo. Julgo que este papel do FMI tem sido bastante redutor e esta é uma situação que deve preocupar os portugueses. O FMI não deveria ter um papel exclusivamente financeiro, mas deveria procurar reunir uma equipa credível que permitisse acompanhar a execução orçamental do Governo e que estivesse presente nas principais decisões estratégicas da governação portuguesa. Só desta forma se pode combater o desperdício, a falta de rigor e se poderá colocar em ordem certos ministérios e empresas públicas, que de outra forma continuirão a ser mal geridos.
Cabe ao FMI e âs agências europeus definir o modelo de intervenção e de acompanhamento para Portugal. Terá que ser o Governo em conjunto com os principais partidos da oposição a negociar o respectivo plano de austeridade e sistema de contra-partidas. Espero que este plano de austeridade seja construído tendo por base um corte assinalável das despesas do Estado e seja orientado para o crescimento económico. Estou convencido que será muito complicado fugir-se a um cenário de aumento de impostos, mas este aumento deve ser sempre bastante selectivo para que o crescimento económico do país não seja posto em causa. Caso contrário, Portugal caminhará cada vez mais para um afastamento dos padrões de vida dos seus parceiros europeus.

domingo, fevereiro 27, 2011

Remunerações dos gestores públicos

A recente proposta apresentada pelo CDS-PP na Assembleia da República com o intuito de limitar as remunerações dos gestores públicos mereceu a reprovação tanto do PS como do PSD. Tal situação gerou alguma surpresa na consonância das posições, principalmente numa altura em que o PSD se pretende assegurar como uma alternativa de governo. Ainda por cima, as justificações do PSD de que é preciso incentivar e premiar a excelência no desempenho dos cargos de gestão públicas não convencem, uma vez que grande parte das empresas públicas apresentam sérios prejuízos financeiros decorrentes da sua actividade ano após ano. De facto, a excelência deve ser premiada, mas só quando se justifica. Para além disso, os actuais constrangimentos orçamentais que grande parte dos funcionários públicos têm sofrido não pode ser só para alguns, e os administradores públicos não devem estar acima dos sacrifícios que são exigidos a todos os portugueses.
Para se premiar os bons gestores públicos deve-se optar pelo seu recrutamento junto de instituições de ensino e empresarias de referência a nível nacional e internacional. A filiação a um determinado partido político não deve ser um dos critérios que condiciona a sua escolha. À partida, se um gestor público tem feito um trabalho de louvor, então não é uma mera mudança governamental que deve motivar a sua substituição. Julgo ser preferível limitar a componente fixa remuneratória dos gestores públicos e deixar uma componente variável para permitir premiar a excelência da gestão. Agora, esta componente variável deve ser cuidadosamente gerida, para que não existam remunerações acessórias extremamente elevadas e, sobretudo, injustificadas.

sexta-feira, dezembro 31, 2010

O novo ano político de 2011

Este novo ano de 2011 traz consigo imensos desafios a nível político e social. É consenso geral que este novo ano será particularmente difícil para os portugueses, particularmente para aqueles que se encontram numa situação social mais vulnerável.

Cheguei a prever no final do ano de 2010 que muito provavelmente o país não iria escapar a um cenário de eleições antecipadas no decurso de 2011. Apesar desta possibilidade ainda estar na ordem do dia, julgo que ela tem esmorecido um pouco nos últimos tempos. Um dos grandes objectivos para este novo ano é garantir que Portugal consiga equilibrar as suas contas públicas e, desta forma, evitar a entrado do FMI em Portugal. Acredito que a actual direcção do PSD pensa da mesma maneira, daí que tudo irá fazer para garantir condições de governabilidade ao actual Governo. De facto, um eventual cenário de eleições antecipadas poderia conduzir a um cenário de ingovernabilidade, já que as actuais sondagens indicam que o PSD não conseguiria obter a maioria absoluta, mesmo que em coligação com o CDS-PP. Contudo, mesmo que esta maioria existisse na Assembleia da República o PSD seria obrigado a tomar medidas ainda mais duras para controlo do défice, mesmo que o FMI não entrasse em Portugal. O actual sistema de despesismo público e volume da dívida portuguesa a médio e longo prazo não consegue ser controlado e mitigado num espaço de poucos meses, recaindo na classe média esse esforço adicional.

De facto, este cenário não se torna atractivo para o PSD. O PSD deve ter a obrigação moral e a vontade política para conduzir os destinos do país nos próximos tempos, mas não pode ser ele o único a pagar a factura pelo actual desgoverno das contas públicas. Cabe ao PSD gerir esta situação de equilíbrio complicado, que por um lado exige crescimento do país e da sua actividade económica, e que por outro lado exige um maior rigor e decréscimo de investimento por parte do Estado.

sexta-feira, outubro 08, 2010

Orçamento de Estado 2011

O PSD tem nos próximos tempos de tomar uma decisão estratégica sobre a viabilização do Orçamento de Estado para 2011. Até agora, a posição do PSD não tem sido clara deixando em aberto a sua aprovação ou não, sendo que a actual liderança do PSD defende que esta decisão só poderá ser tomada depois de conhecido o seu conteúdo. Concordo que me pareça imoral votar a favor ou contra um documento, sem um prévio conhecimento do mesmo, mas o adiamento desta decisão irá fazer com o PSD seja co-responsável pelo conteúdo do orçamento e irá ter um impacto negativo em termos de intenções de voto no partido.

Julgo que o cenário de reprovação do Orçamento de Estado nem deve sequer ser considerado, pois isto implica graves prejuízos para Portugal. Um eventual cenário de novas eleições só seria possível dentro de 8 meses, deixando viver o país numa situação de grande instabilidade e extremamente vulnerável às agências financeiras externas, à UE e ao FMI. Quem iria sofrer com a reprovação do OE seria toda a população portuguesa, em particular os que vivem com mais dificuldades e os assalariados do sector público e privado. Desta forma, resta ao PSD viabilizar o OE através da sua abstenção no Plenário da Assembleia da República. Julgo que seria preferível que o PSD anunciasse desde já a sua intenção de viabilizar o OE, e que simultaneamente garantisse aos portugueses de que tudo iria fazer para tornar o OE mais justo em termos de distribuição dos sacrifícios exigidos. Das medidas de austeridade apresentadas pelo Governo, muito faltou dizer-se sobre os cortes que o Governo pretende efectuar nos gastos operacionais da Função Pública, nas empresas públicas e seus administradores, nos institutos públicos e nas grande obras de investimento do Estado. Cabe ao PSD viabilizar o OE e fazer os possíveis e os impossíveis para que o mesmo seja mais equitativo na distribuição de esforços por todos os portugueses.

segunda-feira, julho 19, 2010

Revisão constitucional

A revisão da Constituição portuguesa apresenta-se como algo necessário e que pode ajudar na resolução de alguns problemas de competitividade do país e torná-lo mais ágil perante os desafios políticos da sociedade actual. Existe, na minha perspectiva, uma distribuição errada dos órgãos do poder e muitas vezes contraditória, o que provoca um acréscimo de dificuldades ao nível da governação.

Contudo, há que também ser realista e verificar-se que uma nova Constituição da República Portuguesa só será possível com a sua aprovação em 2/3 na Assembleia da República. Sendo assim, só teremos uma nova Constituição caso o PS vote favorável à proposta do PSD, o que neste momento se assegura bastante complicado. Possivelmente não deveria ser assim, mas o facto é que em grande parte das vezes, as questões partidárias superam o interesse nacional, daí que o PS esteja mais interessado em evitar o derrube do seu Governo e em preparar um eventual cenário de eleições antecipadas do que trabalhar em conjunto com a oposição em prol da apresentação de uma nova constituição. Para além disso, algumas das ideias lançadas por Pedro Passos Coelho são demasiado ambiciosas e serão extremamente difíceis de se criarem consenso à sua volta. Seria preferível não tocar em questões tão sensíveis como a dissolução da Assembleia da República ou o aumento do número de anos de cada mandato, mas tocar em pontos essenciais ao nível da Saúde, Educação ou Justiça. Passando a um exemplo prático, julgo não fazer sentido que o Procurador Geral da República e outros órgãos de soberania sejam indicados pela Assembleia da República, sendo que o Presidente da República estaria numa melhor posição para os indicar e nomear.

Para além disso, julgo que a apresentação desta revisão constitucional por parte do PPC veio numa má altura, pois serviu para desviar as atenções dos problemas económicos e sociais decorrentes da crise económica e que atinge Portugal. Para além disso, algumas das suas proposta podem ser entendidas como uma défice de democracia pelos partidos mais à esquerda, tornando mais difícil a penetração junto do eleitorado que tem sido mais atingido pela crise económica e que olham para o PSD como uma solução credível de governação. Julgo que seria preferível trabalhar-se tecnicamente mais a fundo nesta proposta de revisão constitucional e apresentá-la depois das eleições presidências e legislativas, caso estas decorram no ano de 2011.

terça-feira, junho 22, 2010

Chefias nas empresas públicas

Apesar de manifestamente tarde, é de louvar a atitude do PSD em denunciar o excessivo número de cargos de chefia existentes nas empresas públicas. Segundo dados recolhidos pelo PSD, as empresas públicas possuem em média mais de 60 chefes com uma remuneração média mensal acima dos 6 mil euros. Para além disso, e de forma surpreendente (ou talvez não) constatou-se a existência de vários chefes sem qualquer subordinado.

Há já algum tempo que venho alertando para o elevado número de chefias intermédias na administração pública e a sua falta de qualificações. Em grande parte das vezes, as qualificações académicas e técnicas dos chefes encontram-se abaixa da qualificação dos seus subordinados, não tendo por isso qualquer capacidade para liderar projectos e assumir as responsabilidades das suas decisões. Muitos destes cargos de chefia foram obtidos devido a uma natural progressão na carreira por antiguidade. Segundo esse modelo, os cargos de chefia são entregues aos empregados mais antigos e estas funções de maior responsabilidade exigem cada vez menos requisitos e competências técnicas. Este é um modelo que desmotiva os vários colaboradores das empresas públicas e que entrega às chefias a responsabilidade, quase exclusiva, pela gestão da burocracia.

Acredito que uma solução a este nível tenha que passar pela reestruturação das carreiras públicas. Não acredito numa solução que apenas vise suprimir alguns destes lugares e baixar alguns destes salários sem uma visão consertada de todas as carreiras públicas. A remuneração dos cargos de chefia deve ter sempre uma componente variável indexada ao desempenho do chefe e do seu departamento ou divisão que se encontra responsável. A progressão hierárquica na empresa não deve passar em exclusivo pela subida a um lugar de chefia, mas deve ir de encontro ao perfil e motivação de cada colaborador. Julgo que um colaborador tecnicamente competente e de inequívoca mais valia para a empresa deve ser premiado em termos salariais, sem que isso implique a sua passagem para um lugar de chefia, que não é a sua principal motivação. Desta forma, evita-se perder um bom colaborador e evita-se ganhar um mau chefe.

terça-feira, maio 11, 2010

Subida do IVA e tributação do subsídio de Natal

A nova subida do IVA e a tributação extraordinária do subsídio de Natal de toda a população (sector público e privado) são duas das medidas ponderadas pelo Governo para garantir o novo objectivo do défice que se encontra neste momento fixado em 7,3%. Estas duas medidas têm de facto resultados imediatos do lado da receita provocando o encaixe de mais de 3000 milhões de euros. Contudo, poderia se ter pensado numa medida ligeiramente diferente, que passa por cativar parte do 13º ou 14º mês em certificados de aforro, nomeadamente para os vencimentos mais elevados. Esta medida teria também resultados financeiros imediatos, para além de ter o efeito colateral de incentivar a poupança e de permitir ao Estado financiar-se internamente, evitando o recurso à banca internacional.

Para além disso, e apesar de acreditar que neste momento não resta ao Governo outra opção que não seja o aumento da receita, a componente da despesa tem também que sofrer um forte decréscimo. Não podemos continuar a apostar num projecto de TGV, que apesar de ter um impacto financeiro residual a curto prazo, terá graves consequências em termos de endividamento externo a médio e longo prazo. Para além disso, outras medidas têm que ser tomadas nomeadamente a forte contenção dos gastos em estudos e pareceres a empresas de consultadoria, a reestruturação dos organismos do Estado (ex: empresas públicas, gabinetes, fundações,..) e o estabelecimento de um tecto máximo para o subsídio de desemprego, independentemente do salário anterior de cada pessoa.

Por último, o actual cenário de crise tem que ser encarado como o momento ideal para se fazerem reformas estruturais nas carreiras públicas. Portugal é um dos poucos países em que os funcionários públicos com níveis de qualificações e trabalhos idênticos ganham mais que no sector privado, o que provoca um forte sentimento de injustiça social. As carreiras públicas deveriam ser revistas, bem como a gama salarial entre os escalões mais baixos e altos de cada posição hierárquica. Esta situação de plena injustiça tem que ser corrigida, para que Portugal possa ser um país mais competitivo e para que o sector privado ganhe um preponderância maior na nossa sociedade.

terça-feira, abril 13, 2010

Rendimento Social de Inserção

Existem em Portugal aproximadamente 400 mil pessoas a receber o Rendimento Social de Inserção (RSI), sendo que a maioria dos seus beneficiários são jovens com menos de 18 anos (37,6%). Em termos financeiros o RSI custou aos cofres do Estado cerca de 500 milhões de euros em 2009. Se o impacto do RSI em termos financeiros já se pode considerar relevante, ainda o é mais em termos sociais. Os seus beneficiários são muitas vezes cidadãos e famílias desenraizadas da sociedade, cujo sentimento e incapacidade, desmotivação e inércia é por demais evidente. Por outro lado, a outra parte da sociedade que diariamente se desloca para o seu trabalho, nutre um sentimento de alguma revolta e injustiça por esta situação. Este é um problema social que deve ser encarado pela nossa classe política.

Uma das primeiras medidas que deve ser implementada é o reforço efectivo da fiscalização dos beneficiários do RSI. Não se pode olhar unicamente para a declaração de rendimentos destas pessoas, mas também para as suas condições de vida e sinais exteriores de riqueza (caso existam). Mas, só por si, um reforço da fiscalização não chega. É preciso dar uma nova esperança a todas estas pessoas que caíram nesta situação, algumas vezes de forma bastante dramática e sem qualquer intencionalidade. Há que conseguir distinguir as várias situações distintas que existem dentro dos beneficiários do RSI. Assim sendo, o trabalho social de serviço à comunidade é também uma medida que deve ser adoptada, há semelhança do que já acontece num grande número de países da Europa do Norte e Central. Certamente que na Juntas de Freguesia, Câmaras Municipais e IPSS existem um conjunto de tarefas que poderiam ser desempenhadas por estas pessoas. Paralelamente, deveria também existir a obrigatoriedade de se fazer formação profissional, como condição de continuar a receber o RSI.

Este conjunto de medidas iria certamente permitir uma melhor integração na sociedade dos beneficiários do RSI. Como disse o Dr. Pedro Passos Coelho no último congresso do PSD, a sociedade portuguesa deverá estar sempre disponível para ajudar estas pessoas, mas elas terão também que dar o seu contributo para a sociedade. Saber dar e receber é um dos elementos chaves de organização da nossa sociedade.

quinta-feira, março 04, 2010

O novo Programa de Estabilidade e Crescimento

A discussão do novo Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) vai assumir uma importância decisiva no futuro económico do país. A viabilização do PEC na Assembleia da República (AR) é muito importante para a credibilização do país junto da UE e dos seus credores internacionais. De facto, a não aprovação do PEC na AR pode mergulhar o país num cenário de ingovernabilidade, que é de todo indesejável perante o actual cenário de contracção económica mundial. O PEC estipulado pela EU exige que défice público seja inferior a 3% e que a dívida pública seja inferior a 60% do PIB. Portugal tem, portanto, um longo e difícil caminho a percorrer para atingir este objectivo.

As últimas notícias vindas a pública indicam que o Governo vai optar por congelar, ou reduzir drasticamente, as novas admissões na função pública e irá optar pela não actualização salarial dos funcionários públicos nos próximos três anos. Contudo, e caso a economia portuguesa não dê sinais de retoma no final deste ano é expectável que a taxa de IVA máximo seja aumentada em 1% e que a idade da reforma aumente dos 65 para os 67 anos. Infelizmente, o Governo opta por tomar as decisões mais fáceis, evitando fazer reformas na administração pública, e tenta equilibrar as contas públicas à custa da receita. Em contrapartida, defendo que a redução do défice deveria ser realizada quase exclusivamente, tirando as situações de evasão fiscal, pelo lado da despesa e não pelo aumento de impostos.

Na minha opinião, o PEC deveria ser visto como uma oportunidade para efectuar as mudanças necessárias na administração pública, nomeadamente nos seguintes pontos:
- Revisão das carreiras públicas, nomeadamente na redução salarial progressiva dos vários escalões para todos os cargos que possuem uma remuneração mensal superior a 3000 euros;
- Revisão da remuneração dos administradores públicos, fazendo diminuir a sua componente salarial base e dando uma maior importância à sua componente variável. Esta componente variável deveria traduzir o desempenho do administrador, os resultados da empresa pública e o seu crescimento no mercado;
- Diminuição do peso do Estado, nomeadamente da sua massa dirigente. Neste grupo também se devem incluir os políticos que possuem demasiados assessores sem que isto traga um melhor serviço aos cidadãos;
- Maior transparência nos concursos público e diminuição da burocracia associada a todo este processo, em particular ao nível dos prazos de decisão, submissão de propostas e execução;
- Nova estratégia ao nível da carga fiscal, caminhando no sentido da redução de impostos, em particular do IRC, caso o lucro da empresa seja re-investido no seu crescimento e na geração de novos postos de trabalho;
- Revisão das grande obras públicas, nomeadamente do TGV e do novo aeroporto em Alcochete;
- Diminuição da idade da reforma, ou pelo menos, não caminhar no sentido do seu aumento. A administração pública precisa de novos quadros qualificados e de caminhar no sentido da inovação. Envelhecer a administração pública é apenas caminhar no sentido da redução imediata da despesa, mas não se caminha no sentido de uma melhor administração pública e consequentemente no crescimento económico do país.

Estas seriam as políticas que deveriam fazer parte do PEC e que permitiriam ao país enfrentar os novos desafios económicos e sociais. Não acredito que grande parte delas sejam sequer discutidas, pois tal implicaria mudanças profundas na nossa sociedade e nos partidos políticos, e esta mudança é a todo o custo evitada e constantemente adiada. Contudo, se algumas destas medidas fizessem parte do PEC já seria muito positivo.

terça-feira, fevereiro 02, 2010

O papel das agências de "rating"

As agências de notação de "rating" têm por missão avaliar a capacidade dos Estados e das empresas em cumprirem com o reembolso da dívida que emitem e vendem a investidores. Tpicamente, a escala vai de "AAA", a melhor classificação, a "D", que significa que a entidade que emite a dívida não tem capacidade para a pagar. Existem no mercado diversas agências especializadas em medir o risco de crédito de instituições/títulos, sendo que as mais conhecidas são a Moody’s, Fitch Ratings e Standard & Poor's.

O grau de avaliação destas empresas é dado após a análise de muitos factores, desde informações públicas noticiadas nos órgãos de comunicação social, demonstrativos financeiros das empresas, análise de balanços, perspectivas, análise sectorial, entre outros factores. Após toda esta avaliação dos dados e informações recolhidas, o comité responsável dentro da agência estabelecerá o respectivo ranking. De facto, o rating não se constitui de verdade única, apenas tem por base a opinião dos seus avaliadores, servindo somente para orientar os investidores do grau de risco incorrido no crédito cedido aquela empresa. Assim sendo, a reputação de cada agência de rating, o seu histórico, a credibilidade junto do mercado e capacidade técnica dos seus colaboradores são valores extremamente importantes para estas agências. Contudo, é muito complicado avaliar-se o grau de isenção destas agências e até que ponto elas serão totalmente imunes a pressões dos vários governos ou empresas, pois cada vez mais estes rating assumem um papel absolutamente decisivo para estas entidades.

Há alguns anos, na área da consultadoria financeira, surgiu o célebre caso da Arthur Andersen que teve que deixar de operar sobre esta sigla depois do escândalo da Enron nos EUA. Esta situação torna patente a debilidade destas instituições em termos de credibilidade a médio e longo prazo. Julgo que seria sensato e recomendável que a União Europeia tivesse um papel decisivo na constituição de uma agência de rating verdadeiramente independente. Esta solução poderia passar pela constituição de uma entidade que fizesse concorrência a esta três multi-nacionais americanas e que poderia estar associada ao Banco Central Europeu (BCE). Outra solução, mas que neste caso teria que merecer o consenso das autoridades americanas, passaria pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) assumir também este papel. Seria preferível a existência de uma única entidade sólida a operar à escala mundial, em detrimento da actual proliferação das agências de rating e dos seus inevitáveis jogos de bastidores para serem reconhecidas e aceites pelas governos e empresas com maior poderio no mercado.

segunda-feira, janeiro 04, 2010

Mensagem de Ano Novo do Presidente da República

O Presidente República na última mensagem de Ano Novo efectuou um apelo para que todos os partidos políticos se unam na resolução dos problemas do país, nomeadamente ao nível do desemprego e diminuição da dívida externa. Este apelo é perfeitamente legítimo e urgente, mas não acredito que o mesmo venha a ter consequências práticas.

No decorrer dos últimos anos, Portugal tem perigosamente aumentado a sua dívida ao exterior e a sua balança comercial, já de si negativa, tem-se agravado cada vez mais. As gerações futuras têm já neste momento o seu futuro altamente hipotecado. Acredito que o próximo Orçamento de Estado irá agravar ainda mais esta situação, em detrimento de se tentar diminuir a dívida externa do país, como foi sugerido pelo Presidente da República. Sustento a minha opinião em três factores fundamentais que passo a enunciar. Em primeiro lugar, o Governo já anunciou um forte investimento público para os próximos anos que é encabeçado por duas obras emblemáticas: o TGV e um novo aeroporto em Alcochete. Em segundo lugar, o Governo terá necessidade de apresentar medidas de combate ao desemprego e de apoio social, que terão um impacto importante no aumento da despesa. Por último, e uma vez que o Governo não dispõe de maioria na Assembleia da República, então terá necessariamente que existir alguns acordos parlamentares entre os restantes partidos da oposição, sendo que os melhores posicionados são o CDS-PP e o PSD. Muito provavelmente um eventual acordo entre estes partidos passará por um maior apoio do Governo às PMEs, que faz todo o sentido neste cenário de crise económica, mas que inegavelmente levará a um aumento da despesa. Como tradicionalmente em cenários de crise a receita não aumenta e como será necessário aumentar-se a despesa, e não existe coragem política para alterar as estruturas de custo semi-rígidas no OE, então terá que recorrer-se a despesa extraordinária para equilibrar o OE. De qualquer forma, este volume de despesas extraordinárias não terá dimensão suficiente para cobrir o aumento da despesa, sendo que o único recurso disponível é, mais uma vez, o aumento da dívida externa de médio e longo-prazo.

terça-feira, dezembro 15, 2009

Condições de governabilidade

A actual situação de maioria relativa no parlamento do actual Governo pode, só por si, provocar algumas situações de instabilidade e, porventura, originar um cenário de ingovernabilidade. A agravar esta situação temos a actual postura do primeiro-ministro José Sócrates que gosta de governar sem consultar os demais partidos políticos, e que se sente confortável na gestão de assuntos meramente políticos, nos quais as competências técnicas sejam passadas para um plano secundário. O comportamento da oposição ao longo destes últimos meses tem sido o de aumentar o nível de conflituosidade na Assembleia da República (AR), levando o debate de ideias e propostas unicamente para o campo político. Os restantes partidos na AR têm muitas vezes a noção de que para terem visibilidade junto dos cidadãos devem optar por um posicionamento de oposição total às ideias do Governo. Aliás, a própria comunicação social anda sempre à procura do tal líder da oposição, quando deveria procurar pelas ideias e projectos distintos de governação para o país. Sem isso, a oposição cai num vazio de conteúdo que não dignifica o nosso actual sistema democrático.

Todos os partidos na AR deveriam caminhar no sentido de diminuir o actual clima de conflituosidade política que actualmente ser verifica. O Governo terá que ser o primeiro a dar o exemplo aquando da apresentação do próximo Orçamento de Estado (OE) para 2010. Não se pretende que os partidos da oposição se abstenham ou votem a favor do OE apenas para não criarem um cenário de ingovernabilidade e por temerem um cenário de eleições antecipadas. Todos os partidos, e em particular o PSD, devem ter sentido de responsabilidade, promover uma maior negociação com o Governo e focarem as suas propostas na melhoria das condições de vida das empresas e cidadãos em Portugal. Esta negociação deverá ser transparente e conduzida na Assembleia da República, o que não significa que todas as matérias sejam alvos de debate em plenário, uma vez que tal situação poderia inviabilizar a obtenção de consensos partidários. Simultaneamente, e no caso particular do próximo OE, sugiro que os líderes das várias bancadas parlamentares possam reunir-se entre si de forma a alicerçar-se as bases e plataformas possíveis de entendimento.

quarta-feira, dezembro 02, 2009

Nomeação do Procurador-Geral da República

Motivado pelo processo judicial Face Oculta, o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público propôs que o Procurador-Geral da República (PGR) seja nomeado por uma maioria qualificada de dois terços na Assembleia da República, em vez de ser indicado pelo Governo.

Em primeiro lugar, julgo que esta proposta é manifestamente inoportuna quando se vive um momento especialmente controverso na justiça portuguesa. Seria bem mais prudente apresentar esta proposta no final de um ano judicial, para que a mesma fosse analisada pelas diversas forças políticas, pois a aprovação de tal lei implicaria alterações na Constituição da República. Contudo, e voltando à essência da questão, julgo que seria mais correcto que a nomeação do PGR fosse da responsabilidade exclusiva do Presidente da República, sem que exista qualquer interferência do Governo. Esta solução permitiria reforçar a legitimidade democrática do cargo e daria melhores condições de estabilidade ao PGR. Assim sendo, o PGR estaria unicamente dependente do Presidente da República, que teria em sua posse as competências da sua indicação/nomeação e exoneração.

quarta-feira, novembro 04, 2009

Novo Governo

A composição do novo governo mostra claramente que existe uma estratégia bem pensada por parte do Eng. José Sócrates para este novo governo sem maioria absoluta. Em 1º lugar, nota-se que é um governo que pretende agradar tanto à direita do PS como à sua esquerda. Na área económica, o Eng. José Sócrates escolheu personalidades que podem fazer a ponte entre o governo e os partidos da direita e empresários portugueses; em áreas sociais optou-se por uma escolha de ministros com uma clara aceitação junto da esquerda e com maior capacidade de diálogo. Sobraram apenas alguns cargos que foram cirurgicamente ocupados por personalidades com forte dimensão partidária, numa espécie de reconhecimento e recompensa pelo seu posicionamento mais feroz em termos de combate político, como são os casos do Prof. Augusto Santos Silva e do Prof. José Junqueiro.

Contudo, não creio que a composição deste novo governo traga também consigo uma mudança brusca de comportamento por parte do Eng. José Sócrates. O seu estilo de liderança encontra-se demasiado bem vincado para sofrer uma mudança de 180ºc. Pelo contrário, este já afirmou que a responsabilidade pela estabilidade governativa depende sobretudo dos partidos da oposição. Assim sendo, prevê-se que o estilo de governação do Eng. José Sócrates será idêntico aquando da maioria absoluta (pelo menos nos primeiros dois anos de mandato) com um governo mais dialogante e cooperante com o parlamento e restantes sensibilidades políticas. Resta saber se esta estratégia de governação conseguirá garantir uma estabilidade governativa por quatro anos e se será capaz de conduzir o país na rota do progresso e desenvolvimento sustentável durante este período.

sexta-feira, outubro 02, 2009

Polémica das escutas na Presidência da República

A declaração do Presidente da República está longe de esclarecer tudo para além de dois factos essenciais: o Drº. Cavaco Silva considera que o partido do Governo tentou puxá-lo para a luta político-partidária e provocou desviar as atenções do debate eleitoral das questões que realmente preocupavam os cidadãos. Nestes dois pontos estamos claramente de acordo. Contudo, o não esclarecimento em momento oportuno de toda esta polémica alimentou demasiadas especulações, que foram usadas como armas de arremesso político. Este tipo de ambiguidades, de insinuações, de lutas de poder, de mensagens pouco claras é obras de políticos que não se dignam a exercer as funções para as quais foram eleitos. Infelizmente, a classe política e o trabalho político é bastante preenchido por este tipo de situações.

Regressando aos factos que suscitaram toda esta polémica. O e-mail que foi tornado público pelo DN e trocado entre a casa civil da presidência da república e o jornal Público poderá ter sido interceptado junto do jornal Público, e não dos computadores da Presidência da República. Aliás, este é até o cenário mais provável. Em 2º lugar, o PS lançou a acusação de que membros da casa civil da presidência participavam na elaboração do programa de governo do PSD. Também julgo que tal situação não constitui uma irregularidade, pois o seu contributo é feito em nome pessoal e não são remunerados por esta tarefa. Contudo, faltou o esclarecimento por parte do Drº. Cavaco Silva logo que esta acusação foi lançada pelo PS. Em 3º lugar, o Presidente da República não pode acordar para o problema da segurança informática a meio do seu mandato presidencial. Este é um problema sério e deveriam já existir políticas de segurança informática que permitissem certificar a segurança dos sistemas de informação usados no Palácio de Belém. Este deveria ser um procedimento regular e não meramente extraordinário.

Por último, e respondendo ao repto de alguns comentadores políticos que julgam que se atingiu um ponto de não retorno entre a PR e o PM, gostaria de expressar também a minha opinião. Obviamente que as relações entre o Presidente da República e o Primeiro Ministro e partido do governo (PS) estão tensas, mas julgo que o PS não se encontra liquidado à nascença. Acredito que toda esta poeira irá assentar e as relações entre estas duas instituições poderão melhorar, mas nunca estarão a um nível desejável para que se possa considerar que existe uma boa cooperação institucional entre S. Bento e Belém. Uma eventual demissão do novo Governo eleito democraticamente por parte do Presidente da República só iria prejudicar o país, a sua própria imagem pessoal e favorecer o PS. Garantidamente que se num curto espaço de tempo existisse um novo acto eleitoral, o PS teria todas as condições de conseguir um Governo de maioria absoluta e, aliado a isso, conseguir colocar um Presidente da República indicado pelo Partido Socialista. Este, é de todo, um cenário que não agrada ao actual Presidente da República e também ao PSD. A política, contrariamente à cultura militar, baseia-se em cenários de equilíbrio e todos os envolvidos sabem das consequência nefastas que existem em colocar em causa este equilíbrio. Na política opta-se muitas vezes por se seguir uma estratégia baseada no adiamento, da não tomada de decisão, para não ferir certas susceptibilidades. Por outro lado, a cultura militar é bem mais pragmática, procurando os desequilíbrios com o intuito de encontrar um vencedor.

segunda-feira, setembro 28, 2009

Resultados das legislativas 2009

Os resultados das eleições legislativas da noite de ontem trazem consigo dois vencedores: o PS e o CDS-PP. Em 1º lugar, o Engº. José Sócrates conseguiu a vitória nestas eleições e manterá a sua posição de primeiro-ministro. É certo, que não conseguiu a desejada maioria absoluta, mas tal cenário tinha já sido completamente afastado desde as últimas eleições europeias. Em 2º lugar, o CDS-PP é também vencedor, pois conseguiu assumir-se como a 3ª força política em Portugal e posicionar-se acima, em termos percentuais e em número de deputados, face aos seus adversários da esquerda.

Analisando individualmente cada partido gostaria de tecer os seguintes comentários. O PS teve uma votação ligeiramente superior ao esperado, conseguindo obter uma maioria relativa confortável. O PSD teve uma mau resultado, pois perdeu as eleições e ficou abaixo da fasquia dos 30% nacionais. Julgo que o PSD foi fortemente penalizado face à sua campanha eleitoral cheia de casos, que empolgaram alguns dos seus militantes, mas que nada dizem ao cidadão comum. O CDS-PP teve uma excelente votação, que foi o resultado de uma campanha eleitoral corajosa e dirigida aos problemas concretos que afectam a maioria dos portugueses. O BE teve também uma subida significativa, mas já esperada e porventura menor face às expectativas iniciais. O PCP acabou por ser uma desilusão, apesar de ter mantido o mesmo resultado eleitoral, mas diminuindo a sua influência no espectro político português.

Perante estes resultados existem vários cenários de governação possíveis. Julgo que o mais provável, é que o PS opte por manter uma maioria parlamentar relativa com acordos pontuais junto do PSD e do CDS-PP para a aprovação do Orçamento de Estado (OE) e do plano de governo. Considero também que o PSD deve estar receptivo a viabilizar estes dois pontos fundamentais, mas não deve aliar-se ao PS num possível cenário de Bloco Central. O PSD deve ser sempre um partido responsável no panorama político português, mas deve constituir-se sempre como uma alternativa viável e credível ao PS.

Por último, algumas breves considerações sobre a liderança do PSD. O PSD deve unir-se nas próximas duas semanas para a conquista das próximas eleições autárquicas. Julgo que neste momento estão reunidas as condições para que o PSD tenha uma magnífica vitória nas eleições autárquicas. Julgo também, que a Drª. Manuela Ferreira Leite deveria permanecer no parlamento como líder do PSD, até às próximas eleições directas no PSD que ocorrerão em Maio de 2010. Até Maio do próximo ano, o PSD terá um caminho exigente na viabilização do próximo OE e na definição do próximo plano de governo, no qual o PSD poderá ter uma palavra importante a dizer. Para que tal aconteça, é necessário que o PSD permanece unido e que uma disputa a uma nova liderança no PSD aconteça unicamente no início do próximo ano.

Legislativas 2009